Por Bruno Siqueira
“Nova Dramaturgia”. Uma expressão muito vaga para o que tem sido escrito em teatro nas duas últimas décadas. Sem falar que se trata de um termo criado pela crítica do eixo Rio de Janeiro—São Paulo para se referir à produção dramatúrgica apenas dessa região. Pelas produções que nos chegam, esse qualificativo “nova” parece se referir muito mais a uma questão cronológica, ou seja, ao momento contemporâneo da dramaturgia do Sudeste brasileiro, do que propriamente a um pressuposto estético elementar, no sentido de experimentações formais e substanciais.
É o caso de Bosco Brasil, dramaturgo paulista que tem produzido profissionalmente para teatro desde a década de 1990. Confesso que dele conheço apenas dois textos, Novas Diretrizes em Tempos de Paz e O Acidente, e por isso não tecerei comentários mais globais. Focarei meu olhar sobre O Acidente, que, este ano, foi encenado pela Visível Núcleo de Criação, sob a direção de Fausto Filho, e apresentado, ontem, na IV Mostra Capiba de Teatro.
O texto tem uma clara influência da dramaturgia de Harold Pinter, sobretudo num ponto que foi levantado pela academia sueca, na ocasião da premiação do dramaturgo inglês com o Nobel de Literatura: "Pinter devolveu o teatro a seus elementos básicos: um espaço fechado e um diálogo imprevisível, onde as pessoas perdoam umas às outras e onde não há lugar para a ambição".
O Acidente é uma peça de cena única, com duas personagens, Mário e Mírian. Por ocasião do aniversário de Mário, Mírian se vê, acidentalmente, sozinha no apartamento do colega de trabalho, uma vez que os demais convidados simplesmente não compareceram. No diálogo tenso que se desdobra em cena, com falas curtas e entrecortadas, as personagens deixam revelar seus medos, traumas, angústias, imagens idealizadas que um fazia do outro, num realismo intenso que em determinados momentos se aproxima do absurdo.
O dramaturgo constrói personagens comuns do cotidiano e concentra a ação num dado momento de suas vidas, para desvelar a solidão, o isolamento e a incomunicabilidade do ser humano no mundo contemporâneo. Só essa temática já seria suficiente para justificar a qualidade da peça. Apesar disso, o texto não me alcança esteticamente. A ação me parece gratuita, forçada, com um diálogo frágil, ainda que seu mérito seja o de criar a tensão sufocante na cena. Mas isso é uma opinião absolutamente pessoal. A muitos que assistiram ao espetáculo na Mostra, parece que o efeito foi o contrário, a depender dos comentários feitos no debate que se instaurou logo após a apresentação.
O que faltou ao texto foi compensado na cuidadosa encenação de Fausto Filho. Mesmo numa concepção realista da cena, em que os atores procuram agir com naturalidade (tanta, que bebem praticamente sozinhos duas garrafas de vinho) numa cena delimitada pelas quatro paredes da sala do apartamento de Mário, o público é convidado a abandonar o espaço da plateia, de visão frontal, para invadir a cena em suas fronteiras. Como se as paredes desse apartamento tivessem furos por onde cada espectador pudesse espiar a vida íntima daquelas duas personagens. Num mundo dominado pelos reality shows, a encenação abre espaço para o público exercer sua curiosidade mórbida, olhando pelas diversas fissuras nas paredes.
Há, assim, uma proximidade maior entre atores e espectadores, o que é muito curioso e interessante. Apesar da dificuldade inerente à interpretação realista, Kléber Lourenço e Sandra Possani conseguem viver suas personagens com bastante desenvoltura e emoção, expressando as angústias e tensões de suas personagens.
Por fim, vale uma menção especial à direção de arte de Java Araújo e à iluminação de Luciana Raposo. O primeiro contribui com a cena criando uma visualidade simples, realista e esteticamente funcional. Luciana Raposo, por sua vez, é uma das grandes, e melhores, iluminadoras da cidade. A sua luz para o espetáculo procura salientar o clima realista da cena, mas, no momento de maior tensão, próximo ao final da peça, as luzes brancas diminuem e intensifica-se uma luminosidade azul nas estantes e nos livros espalhados pela sala, que se soma ao vermelho intenso do abajur e ao amarelo da mesa, criando uma atmosfera expressionista que nos permite sair da superfície da realidade e mergulhar nas camadas obscuras daquelas duas personagens angustiadas.
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Sobre o Crítico...
Bruno Siqueira
Doutor em Literatura Dramática e professor do curso de Artes Cênicas da UFPE. É crítico teatral, tendo participado como colaborador efetivo do Portal TeatroPE nos anos de 2007 e 2008. Colaborou com o Diário de Pernambuco, com a publicação de alguns textos de crítica teatral. Tem artigos críticos publicados em revistas e livros acadêmicos.
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