Por Duda Martins
O Visível Núcleo de Criação trouxe ontem à IV Mostra Capiba de Teatro a peça O Acidente, texto do paulistano Bosco Brasil e direção de Fausto Filho. O elenco é composto apenas por Kléber Lourenço e a gaúcha Sandra Possani, especialistas na arte de constranger. Digo isso porque desconforto, sufocante, é o que sentimos do começo ao fim da montagem. O grupo fez questão de colocar à mostra como os anseios e as expectativas das relações são difíceis de lidar, quando encarados frente a frente.
Antes mesmo que a peça comece, somos convidados a entrar na casa de Mário. A disposição do público em torno e tão próximo da pequena sala realmente nos faz sentir como quando entramos numa festa que não conhecemos ninguém. E ficamos observando tudo, os mínimos detalhes, fingindo que não estamos incomodados, mas loucos para que chegue logo, urgente, alguém com que eu me sinta à vontade pelo menos para respirar normalmente. Na sala olhamos a enorme quantidade de livros espalhados pelo chão, estante e mesinhas. “Moby Dick”. Li o primeiro título, chacolhando a perna inquieta, louca para que a luz apagasse e eu sumisse daquela cena. Mário entra e isso não acontece. Ainda estamos lá, e apesar de ele não saber disso, há a nítida sensação que sou voyeaur das mais intrometidas. “Machado de Assis”, me esforço para ler a capa de outro livro, tentando desvendar a personalidade daquele ser estranho.
É 21 de junho, se não estou enganada, aniversário de Mário. A secretária eletrônica é uma carrasca, na medida em que nega os convites e mostra os verdadadeiros amigos ofertando as mais variadas desculpas. Estou quase indo embora também. É que não suporto constatar a solidão de ninguém. Até que enfim, Mírian toca a campanhia. Ufa! Alguém para me fazer companhia. Mas como ela também não sabe que estou por lá, é a sua vez de sofrer de desconforto.
- A Abigail não vem?
- Ela ainda não deu notícias
- Quem mais vem?
- O pessoal da firma
Ninguém mais vai vir. E eles cruzam os olhares rapidamente, bebem o vinho (duas garrafas) rapidamente, e falam frases desconexas, interrompidas por uma ansiedade, uma sensação estranha. O texto de Bosco é sempre assim. O constragimento não passa nunca, olhar nos olhos é a tarefa mais difícil da noite. Mas o sentimento pára por aí.
O Acidente propõe um realismo interessante. A quarta parede de pé para eles (personagens) e totalmente demolida para nós (espectadores). A interpretação, no entanto, não alcança o naturalismo proposto por Stanislavski. A narrativa fragmentada depõe contra os atores, que engessados em diálogos que nunca se completam, não parecem à vontade nem mesmo para interpretar. A bebida é real, mas a ação de beber não se dá de forma natural, assim como as confissões, os gritos, o toque. O sentimento é que de tanto tentar ser constrangedora, a peça não flui e não nos alcança nos demais níveis.
Kléber Lourenço e Sandra Possani tem potencial suficiente para dar mais vida à Mário e Mírian. O enredo e o elenco têm capacidade para nos fazer criar uma identidade com as personagens, de chorar junto com elas, e nos decepcionar junto com elas, como propõe o realismo nu e cru. Tentei sentir tudo isso, mas não veio nada além do desconforto. Como já disse em outras críticas, alcançar esse nível de interpretação realista, minimalista, não é fácil. É um exercício diário no ofício do ator, e não tenho dúvidas de que chegam lá. O texto talvez trave esse processo de fruição das personagens.
Destaco ainda o olhar sensível da iluminadora Luciana Raposo, e os figurinos e objetos cênicos bem cuidados.
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Sobre a crítica...
Duda Martins
É Jornalista e trabalha como repórter no Caderno C (Jornal do Comercio PE). Em 2010 fez as coberturas de Turnê Dionisíacas Teatro Oficina no Recife, Festival Palco Giratório, Janeiro de Grandes Espetáculos e participou como critica do Seminário Internacional de Crítica Teatral.
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