quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Carta ao encenador de Cordel do Amor sem fim


Prezado Samuel Santos,

Provavelmente você não se lembra de mim. Fui eu que escrevi no Portal TeatroPE, lá pelos idos de 2007, aquela crítica sobre o espetáculo O Bom Samaritano dirigido por você e por Clara Camarotti. Lembro-me que, saída a crítica, nos encontramos pouco tempo depois no Teatro do Parque e batemos um papo sobre o que eu havia escrito. Na ocasião, você tinha ficado muito contrariado com meu ponto de vista sobre o popular e sobre a sua montagem. Talvez como forma de revide, você deixou escapulir que gostava de um teatro popular e não seguia a trilha de um teatro gay, isso porque eu havia escrito duas críticas elogiosas, uma sobre a dramaturgia homoafetiva de Newton Moreno e outra sobre o humor queer (e popular!) da Trupe do Barulho.

Não quis levar adiante a discussão porque percebi o quão aborrecido você se encontrava no momento e, por isso, não estava aberto a compreender minhas colocações. Eu sabia que um dia voltaríamos a conversar. E essa ocasião chegou. Depois que assisti ontem, na IV Mostra Capiba de Teatro, seu espetáculo Cordel do Amor sem Fim, foi inevitável me lembrar de sua peça O Bom Samaritano e compará-la a sua mais recente encenação. Confesso que fiquei muito emocionado com o que assisti. Mas não é só de emoção que quero falar. A emoção faz parte da minha experiência estética e diz respeito só a mim. Meu propósito é (1) explicar por que seu espetáculo tanto me emocionou e (2) salientar o seu belíssimo amadurecimento como encenador.
Para tanto, pedirei licença para citar excertos de minha crítica ao seu trabalho de 2007, que nortearão meus comentários sobre Cordel do Amor sem Fim, analisando, assim, uma passagem de transformação. Os trechos estarão em itálico, destacados, portanto, do texto que se segue.

  1. A meu ver, o maior problema da montagem encontra-se no nível conceitual. Os encenadores expressam na cena uma concepção do popular que, apesar de algumas convergências, parece ir de encontro à noção de cultura do povo, longamente refletida e amadurecida pelo mestre Borba Filho [...] a composição plástica da cena é primorosa. Mas padece pela falta de vida, de energia e de vigor, fatores tão fundamentais nas representações dramáticas populares. O ritmo, que é um dos elementos mais vivos dos folguedos populares, encontra-se quase morto n’O bom samaritano [...] A cultura do povo é viva, dinâmica. Não consegue estar emoldurada num quadro estático.
Nada do que apontei na crítica de 2007 se verifica no seu mais recente espetáculo, o Cordel do Amor sem Fim. O popular se encontra entranhado na cena, pelo menos se entendemos por popular a cultura do povo humilde, base da pirâmide social. Ele está nos mínimos detalhes. Está na dramaturgia de Claudia Barral, que incorre no risco de reafirmar o estereótipo do Nordeste sofrido; mas que sua encenação soube evitá-lo muito bem. Está na cenografia. Está nos figurinos, que ora evocam as composições de bonecas de feira, ora as de Mané Gostoso. Está nos adereços. Está na louvável sonoplastia, realizada toda no palco pelos atores, através de instrumentos populares, de percussões, de ruídos e de cantos. Seu espetáculo remete evidentemente à cultura do povo, com uma escritura cênica plasticamente primorosa e... repleta de VIDA, ENERGIA, RITMO, VIGOR, fatores que, continuo afirmando, são fundamentais nas representações dramáticas populares.

  1. Está faltando direção dos atores (todos eles de inegáveis qualidades), a fim de ajustar motivações e movimentos que contribuam para o encantamento da platéia. Esse é um trabalho ao qual os diretores não podem se furtar.
Em Cordel do Amor sem Fim, os atores desempenham seus respectivos papéis com dignidade e com vigor. Naná Sodré, no papel de Madalena, irmã mais velha e esteio das demais, está excelente, realizando, com motivação, movimentos precisos e compondo máscaras muito significativas para o perfil de sua personagem. Não menos excelente está Agrinez Melo, que vive a irmã Carminha, apaixonada por José, pretendente de Tereza, a terceira irmã. Agrinez compõe, em figurino e expressões corporais, a imagem viva de uma boneca de feira de Caruaru. Deliciosa. Thomás Aquino, que faz o José, tem presença e verdade cênica, energia, ritmo, boa voz, expressões precisas e compõe com dignidade a típica personagem masculina rejeitada pela mulher amada. Eliz Galvão está linda em cena vivendo a personagem Tereza. Mas duas coisas não estão a seu favor, por ora: primeiramente, ela assumiu a personagem há pouco tempo, não tendo passado por todo um processo de pesquisa e de laboratórios a que o grupo esteve submetido; segundamente, sua personagem de mocinha ingênua e apaixonada é um desafio para qualquer atriz, pois não oferece tantas nuanças típicas que as outras  personagens possuem. Dessa forma, apesar da honestidade com que a atriz desempenha seu papel, ela termina sendo “engolida” pelos demais atores. Vale menção também o trabalho Diogo Lopes, responsável pela execução do som, dominando com perfeição e expressividade os instrumentos de percussão e de sopro, dentre outros.

Diga a Agrinez para não se preocupar com a caricatura. O caricato, me parece evidente, é um traço estilístico da cena em Cordel do Amor sem Fim e está perfeitamente coerente com a proposta da encenação. Você mesmo, Samuel, abriu o debate afirmando que as personagens foram construídas na linha do grotesco, do surreal. As expressões corporais que nos remetem às imagens de xilogravuras e as máscaras grotescas são, portanto, caricaturas que contribuem não só para a plasticidade do espetáculo, como também para sublinhar uma interpretação visceral por parte dos atores.

  1. Por que encenar, hoje, esse mistério hermiliano? Os encenadores d’O bom samaritano não tiveram tempo, talvez, de pensar com que olhar contemporâneo deveriam interpretar uma peça datada como essa. Em que ela seria importante para os dias de hoje? Faltou traçar um movimento dialético, como faria Hermilo Borba Filho se estivesse vivo, entre o presente e o passado.
Eis aí o nó da questão! Neste ponto, parece que você não tinha compreendido o que eu havia escrito em 2007, muito provavelmente porque eu não fui tão claro. Trata-se de uma questão que eu, como espectador crítico, sempre levanto quando assisto a um espetáculo: por que se montar determinado espetáculo? Se o teatro instaura uma comunicação estética, o que aquele espetáculo está querendo me comunicar? A que ele vem?

No caso de muitos dos espetáculos chamados, pretensamente, de populares, o que mais me falta a paciência como espectador (afinal, tenho esse direito, não?) é ver em cena estereótipos vazios disso que ficcionalmente chamam de popular. Se não se trata da expressão autêntica do povo pobre de uma dada região, que oferece espetáculos populares a partir do sentido próprio de um sistema antropológico do imaginário que lhe pertence, com que propósito a classe média teatral carrega os seus próprios espetáculos com esses “mitemas” populares (acredito que Agrinez possa discutir isso muito bem, já que se trata de um jargão particular da Antropologia)?

Deslocados de seu contexto, esses rituais populares tendem a ser usados como bibelôs que se oferecem aos espectadores para um entretenimento culinário da classe média. Os ritos populares perdem seu caráter cultural, social e político e viram objetos exóticos para uma classe consumista. Daí, classificar essa arte teatral como “popular” é criar uma verdade fundada na ficção. E ai de quem ousa dizer que essa pretensa verdade é uma ficção! É logo estigmatizado como herege, como antinacionalista etc etc etc.

Assumamos, pois, a ficção! Deixemos clara nossa leitura do popular e reforcemos que se trata de UMA leitura! Em Cordel do Amor sem Fim, você e sua equipe deixaram claro a que vieram. Seu espetáculo comunica esteticamente. Como disse, o populário nordestinho está nas entranhas dessa sua montagem. Mas, à diferença da montagem de 2007, temos um conceito amplo e contemporâneo desse populário. Fiquei emocionado quando ouvi de você, no debate ao final do espetáculo, que “não queria aquela coisa regional, aquela coisinha...”; que se trata de “um trabalho que transcende o universo cotidiano que nós vivemos”. Fiquei emocionado porque me emociono com textos inteligentes. Identifico-me demais com o que você falou. Era isso que eu queria dizer naquele ano de 2007.

N’O Cordel..., o Nordeste já não se restringe mais ao estereótipo. O Nordeste está emaranhado numa teia complexa com o mundo. O Nordeste tem um substrato afro muito forte (tão parcamente explorado pelos artistas da chamada “arte popular”). Louvável a pesquisa que o grupo fez das culturas e religiões afro-brasileiras, cujos resultados estão presentes no espetáculo em foco.

No mundo globalizado que nós vivemos, rompem-se as fronteiras entre Ocidente e Oriente, somam-se as culturas, verticalizam-se as tensões. O Oriente está presente no Nordeste configurado em seu espetáculo pelos traços estilísticos do Tai Chi Chuan, que contribui para trabalhar nos atores as expressões, o tempo que dilata e que contrai, num ritmo diferente dos nossos hábitos ocidentalizados.

O seu novo espetáculo assume a “sujeira”, a “impureza” do Nordeste, desse Nordeste misturado, com uma diversidade cultural inalienável. Muito diferente da limpeza e da assepsia daquele espetáculo de 2007.
  1. Eu tenho certeza de que, em outro contexto e em outras circunstâncias, os encenadores de O bom samaritano trilhariam caminhos diversos do assumido neste momento. Que essa experiência se some a outras, contribuindo, assim, para o amadurecimento desses dois artistas que muito têm a oferecer para o nosso teatro.
Meu velho, depois de tudo o que disse nesta carta, meu prognóstico de 2007 se cumpriu. Seu amadurecimento como artista e como encenador é visível! Eu não tinha dúvida de que, com sua garra, com sua propensão à pesquisa, à aprendizagem constante, você alcançaria um resultado estético muito superior ao daquele outro espetáculo. Você não se acomodaria no estereótipo. Certamente toda a equipe dO Poste Soluções Luminosas contribuiu para isso, com debates, pesquisas, discussões proveitosas. Todos estão de parabéns.

Se naquele dia do Teatro do Parque eu não dei continuidade à discussão, é porque eu sabia que um dia você mesmo iria encontrar o caminho que o faria dar o grande salto qualitativo em sua experiência teatral. E esse dia chegou. Como tinha dito na crítica anterior, aquele espetáculo de 2007 fez parte de sua trajetória. Cordel do Amor sem Fim é outro momento do seu percurso artístico. Um momento mais significativo, mais vivo, mais comunicativo. E sua trajetória continua. Que outros espetáculos melhores possam vir para ajudar a ampliar a experiência estética de nosso cidade, de nosso estado, de nossa região, de nosso país...

Um abraço cordial,
Bruno Siqueira
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Sobre o Crítico...

Bruno Siqueira
Doutor em Literatura Dramática e professor do curso de Artes Cênicas da UFPE. É crítico teatral, tendo participado como colaborador efetivo do Portal TeatroPE nos anos de 2007 e 2008. Colaborou com o Diário de Pernambuco, com a publicação de alguns textos de crítica teatral. Tem artigos críticos publicados em revistas e livros acadêmicos.

2 comentários:

  1. Destinatário: Bruno Rodrigues Recife 15/12/2010
    Manhã de sol no Recife. De onde moro vejo Olinda e do outro o porto do Recife. Daqui de cima as duas cidades parecem estar aos meus pés. Mas sinto que EU é que estou aos delas.Ha tanta diferença nas duas e ao mesmo tempo são parecidas.Olinda é de mistério, Recife é de revelações . Olinda tem cheiro de mar, Recife de rio/mar. Olinda frágil e delicada, Recife masculina, macho alfa. Uma se veste, a outra se despe. Acho Olinda vestida demais entre rendas e muros, Recife é mais moleque jogada.... Ao mar e o rio. Más há um momento que as duas se assemelham: o momento que a arte circula em toda parte. Não falo só da plástica que é a tendência de Olinda, mas da arte no sentido genérico, geral. Amo as duas por isso.
    Abro um novo parágrafo e com esse digo que ao centro me vejo. Precisamente na frente do palco, como diretor, artista. Tentando concatenar as idéias e os ideais. Ser mistério, revelador, ser mar e rio, delicado e masculino, se vestir e se despir para a arte, para a arte do teatro. Tentamos tanto. Tentamos aprovar um projeto no FUNCULTURA, compor a programação de um festival nacional, entrar na comemoração de um teatro, aumentar a verba do fomento às artes cênicas entrar no palco que giratório, estar na nação cultural, festival de inverno de Garanhuns, construir um trabalho de pesquisa, de grupo, de coletivo, sentir representado por algumas entidades, viajar para outros festivais, outros estados. Tentamos até fazer teatro no seu próprio municio e estado. E às vezes com uma palavra, um gesto, um carimbo vermelho, um não pude ir, um disseram que o espetáculo pesado,as meninas são atrizes, e Samuel dirigi , eu não gosto de texto regional, eu, eu , eu , eu eu,. Fica às vezes muito nisso, nesse EU que acaba o coletivo, um sonho, uma obra, um trabalho. Que vem acabando o teatro feito aqui, por nós. Cordel quase que acaba... Mas graça a deus fomos inteligentes, corajosos, e artistas o suficiente para não esmorecer e dar vida, e deixar que: Tereza, Carminha, madalena, José não morresse. Que essa estória contada por Claudia Barral e vivida por Agrinez Melo, Eliz Galvão, Nana Sodré e Thomas Aquino passasse para a efemeridade tão subitamente, tão injustamente. O espetáculo é genuíno, para vira pedra e sumir. Não queria perder a sonoridade, a cenografia, os olhares e gestos. OS CORPOS, os atores, não queria perder o teatro, esse teatro construído num processo intenso e verdadeiro. Digo: minha universidade Foi o palco teatral e Cordel do Amor sem Fim é meu mestrado.
    Ano de 2011 vai começar tudo de novo, mas só que agora mais legitimado, mais forte, pela nossa temporada no teatro Barreto Junior, Joaquim Cardozo, as apresentações no festival de Natal onde fomos indicados para nove prêmios, ganhamos três,no palco giratório da Paraíba. Que para nós foi uma grata surpresa, em Igarassu, São Lourenço,Garanhuns , mostra Capiba de teatro e pelas criticas dos avaliadores da Mostra.gostei dos avaliadores não por que teceram elogios, mas também pela renovação que esse seguimento necessita venho sempre dizendo e cobrando para os nossos jornais nos vejam e avaliem.
    Agradeço a todos nesse ano que estar quase no final, mas para a gente acortina nunca fecha pois estamos sempre querendo.: ser respeitado enquanto artista enquanto teatro.
    Remetente-Autor, diretor teatral Samuel Santos

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  2. Que lindo Samuca, que bom que a vida continua. Que os palcos estejam sempre com as cortinas abertas. Muito sucesso e sorte para o seu Cordel... Lindo de ver e viver. Parabéns.
    Valeu mesmo.

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